O dia em que percebi que empreender é também maternar ideias

Jan 22 / Mirtes Anjos

É com o Miguel brincando, se divertindo e aprendendo que eu consigo parar para ter momentos como este: o da escrita, o do sentir, o do refletir e voltar a fazer pequenas coisas que eu gostava de fazer antes de embarcar no puerpério. Por sorte, eu achei um espaço que ele brinca e aprende muito, enquanto eu consigo apreciar um café e trabalhar. (e agora, contar um causo para vocês).

A caminho desse espaço, encontramos um pé de amora. Daquele tipo bem cheio de frutinhos roxos, doces e acessíveis à minha altura — uma mãe malabarista de 1,58. Na ida, meio apressada, entre mochila, mamadeira e a cabeça já no trabalho, percebi que o chão estava sujo. 

Sabe aquela sensação “isso ta um sabão”? Por um instante, com sapato alto e roupa de reunião, temi escorregar e cair com o bebê, o notebook e render um meme na página do instagram do bairro.


Foi quando diminui o passo, o Miguel empolgado no meu colo também olhou curioso e perguntou:


“Mamãe, esse é de comer?” Apontando para a folha que estava quase acertando a carinha dele.


Havia pássaros na árvore — e ele ama pássaros. Isso chamou a atenção de olhar para cima, enquanto eu estava focada olhando para baixo e desviando dos perigos do chão.


Naquele momento, percebi que a rotina de passar por ali tinha se tornado automática. A primavera tinha chegado e eu nem tinha notado que a árvore floriu: amoras


Sorri, feliz por ele ter perguntado — e não colocado a amora direto na boca.

Respondi:


“Sim, filho, é de comer.”


Não foi preciso pedir silêncio, nem pausa. Os olhos dele estavam sorrindo e eu queria mesmo era ver ele se deliciando com uma experiência que pouco temos por aqui, de colher e comer o fruto direto do pé.


Simplesmente paramos no tempo, eu ele e as amoras, que explodiam até manchar a ponta dos dedos. Coloquei as mochilas no canto, e juntos fomos catar amoras. Um pequeno gesto que virou uma grande memória. 


Algumas semanas depois, voltei com minha irmã — dessa vez, com o mesmo desejo simples: colher amoras com o Miguel. O chão estava menos sujo, as frutas já não tão doces. Mas, dentro de mim, algo havia mudado. Eu sou comunicóloga e para falar eu exercito a escuta, e foi preciso uma fruta para eu me observar para além das cobranças de uma agenda apertada.


Sim, ele foi para o espaço de brincar sujo…

Eu atrasei uns minutinhos para a minha reunião, mas assim como empreender, maternar não segue um script perfeito, inclusive, as duas funções se parecem mais do que eu imaginava. Às vezes, tudo parece bagunçado, pesado, fora de controle. O faturamento no fim do mês não fecha, a criatividade parece sumir e o protagonismo entra na coxia. Mas basta uma pausa — e um olhar mais leve — para enxergar que há doçura em cada estação.


A árvore me ensinou que as ideias também florescem quando damos tempo, cuidado e presença. Que elas precisam de fases: brotar, amadurecer, cair e recomeçar.

E que a gente precisa se permitir colher, sem culpa, sem pressa, o fruto do próprio processo.


O que bateu forte aqui é que Empreender é, no fundo, maternar ideias.

É dar colo ao que nasce dentro da gente, acreditar no invisível e se encantar quando o inesperado floresce.

Assim como o Miguel e eu com o pé de amora, às vezes tudo o que precisamos é parar, respirar e lembrar: a vida continua frutificando, mesmo nos dias mais corridos.

Artigo produzido por:

Mirtes Anjos

Comunicóloga, empreendedora e mãe do Miguel.
Fundadora da COMUIntegrada e diretora de vendas Mary Kay.
Escreve sobre comunicação, maternidade e o doce desafio de empreender com propósito no mundo da tecnologia e comunicação organizacional.

Os textos apresentados no "Blog B2Mamy" são de autoria da Comunidade. Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial e/ou a opinião da B2Mamy.

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