O olhar de cumplicidade das mães

Jan 8 / Natália Soares

Uma crônica sobre um encontro silencioso entre carrinhos, cansaço e empatia.

Um dia desses, eu estava sozinha em casa com o Pedro, o meu caçula. Perto das 9h30, horário da primeira soneca do dia, fiz todo o ritual: quartinho escuro, fralda limpa, tetê, colo de mamãe e cadeira de balanço. Bocejo, olhinho fechando... de repente, ele levanta no meu colo e decide que não vai dormir.

Bom, vamos pra sala.

Brincamos no chão, ele se enrosca no meu colo, dedinho na boca, olhinho fechando. É agora. Vamos pro quarto de novo. Falhei na missão. De novo.

Olho pela janela. Um solzinho de inverno gostoso. É isso. Vou dar uma volta na rua. Vai ser um sucesso.

Pedroca no carrinho, passeamos por 40 minutos. E nada do bebê da mamãe pegar no sono. Quer dizer, ele está claramente exausto, mas decidido a resistir. Olho pra ele e digo que dormir é tão bom, que uma sonequinha vai deixá-lo mais feliz. Fecho os olhos, como quem ensina. Em vão.

Penso em desistir e começo a voltar pra casa. Passo por uma vilinha de casas em estilo colonial. Rua charmosa, com bossa, ar bucólico. Uma outra mãe vem em minha direção com um carrinho. Também está na missão. Olho pro bebê dela: dorme com as mãos largadas pra cima, num soninho profundo.

O Pedro? Acordado. Mas não importa.

Olho aquele bebê e fico feliz. Porque aquela mãe conseguiu. Trocamos olhares em silêncio, com afeto, empatia e cumplicidade. Sabemos exatamente do que se trata. As noites mal dormidas. As sonecas que às vezes dão certo, às vezes não. As pequenas vitórias. Os sustos com febre. O cheiro de leite azedo no ombro. Os choros que demoram pra fazer sentido. Os sorrisos que fazem tudo valer.

Ali, não era uma competição sobre quem conseguiu fazer o bebê dormir.

Era um encontro. Um aceno silencioso entre duas mulheres que, mesmo na solidão da rotina materna, sabem que não estão sozinhas.

Ah, e só pra constar: assim que a gente chegou em casa, ele dormiu. No carrinho. No meio da sala. Sem cerimônia.

Maternidade é isso aí.


Artigo produzido por:

Natália Soares 

Mãe de dois meninos. Comunicóloga e especialista em parentalidade corporativa. Com 20 anos de experiência em multinacionais, atua na transformação de culturas organizacionais para promover ambientes mais humanos, inclusivos e sustentáveis para mães e pais.

Os textos apresentados no "Blog B2Mamy" são de autoria da Comunidade. Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial e/ou a opinião da B2Mamy.

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