Psicossomático não é doença emocional: o corpo também fala

Jan 20 / Nicole Plascak

Um olhar psicossomático sobre os sintomas e a sabedoria que habita as nossas dores.

A palavra psicossomático costuma ser usada de maneira errada, como se designasse apenas doenças “emocionais” ou sintomas “inventados pela mente”. Mas, na verdade, toda experiência humana é psicossomática, pois não existe separação entre corpo e psique. O corpo é a expressão visível da alma, e a alma se manifesta através do corpo. Assim, dizer que algo é psicossomático não deveria ser um rótulo, mas um lembrete da nossa unidade.

Quando compreendemos o ser humano de forma integral, percebemos que todo sintoma carrega uma mensagem. Ele é uma linguagem simbólica, uma tentativa do inconsciente de tornar visível o que ainda não pôde ser dito.

O corpo, nesse sentido, não “trai” a mente: ele a traduz. Um sintoma não é um erro a ser eliminado, mas um sinal de que algo em nós precisa de atenção, significado e reconciliação. Por isso, ao invés de perguntar “como eliminar este sintoma?”, talvez possamos perguntar “o que ele quer me mostrar?”. Essa mudança de olhar é essencial.

O sintoma deixa de ser um inimigo e passa a ser um guia para o autoconhecimento, revelando emoções negadas, conflitos antigos, padrões repetitivos e dores que aguardam elaboração. A mente e o corpo não são dois sistemas separados, mas dois modos de uma mesma vida se expressar. Todo sintoma físico é também simbólico, e todo sintoma psíquico é também corporal.

Proponho aqui um exercício prático, para refletirmos a partir de questões que trazem um ponto de vista psicossomático e analítico. Pense na sua ansiedade, agora tente responder algumas dessas perguntas, sem julgamentos e sem expectativa de achar uma resposta final:

● O que em mim está tentando ir mais rápido do que o tempo permite?
● Que parte minha teme parar e o que encontraria se o fizesse?
● O que meu corpo acelera para não sentir?
● Que imagens internas (situações, expectativas, vozes internas) estão pedindo controle?

Essas perguntas não buscam diagnóstico, mas consciência. Elas nos devolvem à escuta do corpo e das emoções como portais para o inconsciente.

Se você sente que pode trilhar esse caminho de autoconhecimento através da sua relação com o corpo, esse percurso reflexivo pode ser conduzido dentro de um processo terapêutico. A psicanálise integrativa oferece um espaço para essa escuta profunda. Ao acolher corpo e psique como dimensões de um mesmo ser, ela permite ressignificar sintomas e restaurar o equilíbrio vital. O processo analítico não visa apenas eliminar a dor, mas compreender sua linguagem — para que dela nasça uma nova forma de estar no mundo, mais coerente, mais livre e mais inteira.

Artigo produzido por:

Nicole Plascak

Psicanalista integrativa e psicoterapeuta, com mais de 20 anos de atuação nas áreas da saúde mental, artes visuais e narrativas sobre corpo epertencimento.  Acredita que o processo analítico é um caminho de reconciliação com o corpo, com a história e com aquilo que aindapulsa pedindo transformação. É nesse encontro entre consciência e inconsciente, palavra e corpo, novas formas de vida podem emergir: mais livres, presentes eautênticas.

Os textos apresentados no "Blog B2Mamy" são de autoria da Comunidade. Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial e/ou a opinião da B2Mamy.

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